Fela Kuti

Fela Ransome Kuti nasceu em Abeokuta, Nigéria, e é um dos mais importantes membros do panteão da música africana. O expoente maior do african beat era filho da classe média. Sua mãe, Funmilayo Ransome-Kuti, era uma ativista política anti-colonialista e feminista. O pai, reverendo Israel Oludotun Ransome-Kuti, atuou em movimentos sindicais e foi o primeiro presidente da União Nigeriana dos Professores. Fruto de tal ambiente, Fela não poderia deixar de ter um posicionamento político firme. Ao lado de grandes nomes de seu tempo, como Brown, Marley e outros, sua obra continha um tom contestador. Nos Estados Unidos, Fela Kuti teve contato com o Black Panther Party e o movimento Black Power, que fervilhavam na América do Norte ao mesmo tempo em que na África se deu o chamado “Renascimento Africano” – uma série de ações políticas que culminaram nas independências das nações africanas, sob uma nova perspectiva dos valores tradicionais, tendo a negritude como referência e identidade cultural.

 

Sua obra ficou cada vez mais carregada de questionamentos políticos e, de volta à Nigéria, passou a confrontar sistematicamente o sistema ocidental imposto ao restante do mundo. Casou-se com 27 mulheres, com as quais vivia simultaneamente. Chegou também a fundar uma comunidade, a República Kalakuta, que declarou independente do Estado nigeriano. Era também um defensor do uso de canabis e frequentemente se deixava flagrar com enormes cigarros acesos. Em Kalakuta, Fela mantinha uma casa de espetáculos onde se apresentava regularmente. A república era um oásis onde ele e os seus podiam trabalhar, expressar-se e experimentar um modo de vida deliberado, sem observar determinadas normas – impostas pela cultura européia colonizadora, contra a qual todo o continente lutava àquela altura do século XX. Era o começo da década de 70, período marcado por ditaduras e regimes opressores. O governo nigeriano não via com bons olhos a instauração de Kalakuta e a represália era intensa. Várias batidas policiais foram realizadas no local, algumas com extrema violência. Numa delas, a polícia assassinou a mãe de Kuti e destruiu sua boate. Em outras, ele foi capturado e torturado.

 

O legado de Fela “Anikulapo” Kuti – ele trocou seu nome do meio de Ransome, que afirmava ser um nome de escravo, para um novo que significava “aquele que carrega a morte consigo” – vai muito além de sua postura política. A cultura africana ganhou novos contornos a partir da contribuição de mais este gênio, que influenciou toda a cultura negra desenvolvida ao redor Terra. A força de seus acordes, ácidas misturas rítmicas que iam dos tradicionais toques do continente às inovações criativas dos filhos da diáspora, ajudou a colocar no mapa mundi a cultura produzida na África. Jazz, reggae, ska e outros estilos foram ao mesmo tempo inspirações e inspirados na música de Fela. Além disso, a tradição artística permanece na família através dos filhos que teve. Femi talvez seja o mais famoso Kuti atualmente nos palcos, mas todos os seus irmãos foram educados para cantar e tocar instrumentos. Eles perpetuam o nome e as mensagens do grande porta-voz da negritude

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